Movimento dos Erês. Crédito: João Paulo Ferreira

O Flitabira terá a exposição “Correspondências: Memória, Imagem e Presença” desenvolvida pelo projeto Memorial Vale Itinerante, mantendo ativa a programação cultural do Memorial Minas Gerais Vale durante as obras de reformas da sede, na praça da Liberdade. De 29 de outubro a 1º de novembro, na Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), a mostra reúne fotografias de arquivos institucionais, releituras artísticas e cartas narrativas para abordar histórias, afetos e presenças negras que participaram da formação de Poços de Caldas.

Criada pela LAVA, que é uma ferramenta do Núcleo de Criação e Pesquisa, a exposição é resultado do processo de investigação desenvolvido por Débora Romano, Gabriela Acerbi e João Ferreira, iniciado em 2022. São acervos do Museu Histórico Geográfico de Poços de Caldas no Sul do Estado, retratando pessoas negras em situações cotidianas, postos de trabalho e eventos públicos relacionados à formação do município. As imagens fazem parte de acervos que, em sua maioria, foram produzidos por fotógrafos brancos, principalmente de origem europeia.

Eduarda Carimba “Duda”. Crédito: João Paulo Ferreira

O projeto propõe uma leitura crítica dos modos de registrar e preservar essas vidas, considerando os silêncios e as relações de poder que atravessam a construção dos arquivos históricos. A exposição reúne dez reimpressões digitais das fotografias originais, dez releituras fotográficas em formato ampliado e dez cartas narrativas endereçadas às pessoas negras retratadas. As correspondências imaginam trajetórias e legados a partir dos vestígios preservados nos arquivos, aproximando passado e presente por meio da escrita e da criação artística.

As novas imagens também deslocam os enquadramentos originais e propõem outras formas de representar essas existências, reconhecendo seus lugares na história e na vida cotidiana. O trabalho dialoga com os processos de urbanização da região sul-mineira no período pós-abolição. Historicamente conhecida como estância balneária e turística, a cidade carrega marcas de estruturas escravistas e de exploração territorial. E, nesse contexto, busca-se ampliar as leituras sobre o patrimônio cultural, dando visibilidade à participação da população negra.

Parada da Primavera. Crédito: Acervo do Museu Histórico Geográfico de Poços de Caldas

A ambientação sonora da exposição é assinada por Pedro Henrique Delboni, a partir de relatos colhidos em parceria com Mãe Ana de Iansã, sacerdotisa e liderança do Terreiro do Caboclo Pedra Branca, em Poços de Caldas. Os relatos abordam a importância dos antepassados, a compreensão espiritual do tempo e as entidades Pretos Velhos, acrescentando à experiência expositiva a dimensão de ancestralidade. Ao integrar a programação do Flitabira, Correspondências aproxima a pesquisa visual e documental das reflexões sobre memória e narrativa.

As releituras fotográficas têm participação de Vanessa Sabóia, Raphael, Éricles, Eduarda Carimba, Janaina Domingos, Benedito Aparecido, Roberto Tereziano, Maria Aparecida de Paula, Lucas Santos e Débora Romano, e as crianças Rael, Alice Mariah e Mariana Elena. “A exposição propõe um olhar atento para histórias que nem sempre receberam o devido reconhecimento nos registros oficiais. Ao aproximar fotografias de arquivo, releituras e cartas, o trabalho cria possibilidades de diálogo com a memória e contribui para reconhecer a presença e o legado da população negra”, afirma Wagner Tameirão, gestor do Memorial Vale.

Reportagem: Euclides Éder

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